domingo, 6 de setembro de 2020

PADRE PEDRO QUIRITI: Um arquiteto singular.




Padre Pedro Quiriti (Arquivo pessoal) 

 

INSTITUTO CATÓLICO DE ESTUDOS SUPERIORES DO PIAUÍ - ICESPI CURSO DE BACHARELADO EM TEOLOGIA TEOLOGIA DA MISSÃO – ORIENTADOR PROF. DR. HENRIQUE HEGMANN

Estevão Prondi Souza da Silva

 

PE PEDRO QUIRITI: UM ARQUITETO SINGULAR

“Antes mesmo de te modelar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei. E te constituí profeta para as nações” (Jr 1,5). É uma responsabilidade tremenda escrever, mesmo que em poucas linhas a história de um grande pastor que doou sua vida para que muitos outros tivessem livre acesso à vida eterna, concedeu-me ainda a graça do batismo, sinal de fé com a qual os seres humanos respondem ao Evangelho de Cristo, iluminados pela graça do Santo Espírito. Faço-lhes o convite para que atente ao narrar dos fatos e experiencie o acontecer da história não sendo apenas narrador observador que só vê de fora, mas um narrador personagem que participa e dá vida à história.

 

A BIOGRAFIA... E SEUS FEITOS PASTORAIS...

                Pedro Quiriti nasceu na cidade de Pádua, Itália, no dia 17 de abril de 1926 e cinco dias depois, no dia 22 de abril, foi batizado. De família católica, desde cedo aprendera que o serviço ao próximo acontece na vida doada. De tal modo que, dos muitos irmãos, três se consagraram ao Senhor para segui-lo na vida religiosa na Congregação do Beato Tiago Alberione.

Desde cedo Pedro nutriu apreço e responsabilidade pelo sagrado, como coroinha, coordenou o grupo e lá já apresentava sinais de um verdadeiro líder, compromissado e atencioso para com todos.

                Aos 15 anos, Pedro ingressou na Congregação dos Filhos de São Paulo, Paulinos. Desde cedo, desejava tornar-se sacerdote, mas acabou sendo admitido entre os irmãos leigos consagrados, conhecidos como Discípulos do Divino Mestre. No entanto, após anos de atividades na tipografia e livraria da congregação, Pedro teve um sinal, conheceu Don Folci, fundador da Associação dos Padres “Divino Prisioneiro”, e olhando para o seu interior sentia que ser irmão leigo era pouco para um coração que pretendia ser todo dedicado ao serviço do Reino. Depois de quase 20 anos, resolveu deixar a congregação.

Em 1957, após tomar uma firme decisão, talvez a mais difícil até o dado momento, iniciou os estudos filosóficos rumo ao tão sonhado sacerdócio. E quatro anos depois, em 1961, deu início os estudos teológicos.

Após os estudos no seminário da Arquidiocese de Fermo, Pedro foi ordenado presbítero da Igreja para assim ser no mundo sinal do Cristo cabeça e pastor de seu povo, no dia 27 de março de1965, na Basílica de São Pedro, pela oração e imposição das mãos de Dom Noberto Perini, então Arcebispo de Fermo.

Por conseguinte, após sua ordenação, assumiu como vice pároco da Paróquia de Santo Estefano em Roma, depois sacristão da Basílica de São Pedro. Em, 1968, assumiu a Paróquia de São Simão e Judas em Valle Colorina.

 No entanto, em seu íntimo palpitava um doar-se um pouco mais. Após 10 anos de sacerdócio, resolve lançar-se às águas mais profundas e decide vim ao Brasil como missionário procurando servir aos mais pobres e indefesos.

Chega então ao Brasil em 07 de outubro de 1974, deixando tudo para trás, em busca de uma doação completa pelo Reino. Sendo muito bem acolhido nas Terras de Santa Cruz, sua primeira missão foi assumir a Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes em Itapegica, Guarulhos – SP. Logo despertou em Pe. Pedro um arquiteto, reformou e deu dignidade litúrgica à Igreja paroquial daquela cidade.

 Em fevereiro de 1980, Pe. Pedro tomou posse em sua nova paróquia, Santa Cruz em Moji das Cruzes – SP. Lá também desempenhou seus trabalhos pastorais junto aos mais pobres, reformou a matriz e suas respectivas capelas, sem contar o atendimento espiritual, este era o seu diferencial.

Desejando arriscar-se um pouco mais, Pe. Pedro decide atender ao povo religioso do Piauí, na época, o estado mais carente do país. E no dia 19 de dezembro de 1981, chega ao litoral do estado, Parnaíba.

No ano seguinte, após conhecer um pouco da realidade local, tomou posse como vigário para Paróquia Catedral Mãe da Divina Graça e teve como primeira atividade reformar a Igreja 3 Catedral, a Igreja do Rosário, a casa paroquial, o salão paroquial e ainda construiu uma sala de catequese, a fim de que as crianças tivessem um local reservado e acolhedor.

 Em 1985, com a criação da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição em Ilha Grande – PI, com o decreto de Dom Edvaldo Gonçalves (já eleito como arcebispo de Alagoas) datado de 29 de novembro de 1985 e confirmado pelo decreto nº01/86 pelo então bispo da Diocese Parnaíba, Dom Joaquim Rufino do Rêgo, tomou posse como primeiro pároco.

Não restam dúvidas de que Pe. Pedro é um excelente arquiteto, sabe desenhar desde o bom caminho para que o cristão encontre-se verdadeiramente com Deus ao desenhar uma simples capela e executar sua construção. Seu trabalho constituiu em organizar as comunidades e animá-las espiritualmente. Construiu casas, salões, adquiriu barcos, instrumentos de pesca e perfuração de poços para os moradores da região. Reformou a Igreja, construiu um salão ao lado, construiu/reformou todas as capelas das comunidades existentes, um asilo para idosos, uma farmácia caseira, uma sede para a rádio comunitária e uma casa de nutrição na maior comunidade da paróquia (Santa Isabel).

 

DOS GRANDES FEITOS, UM SANTUÁRIO...

O belíssimo Santuário a Nossa Senhora Mãe dos Pobres e Senhora do Piauí é uma resposta ao pedido de Nossa Senhora a Marieta Becó no ano de 1933, em Banneux, na Bélgica. Nossa Senhora apareceu à jovem moça pela primeira vez no dia 15 de janeiro de 1933 e estas aparições se sucederam até 02 de março. Em todas às vezes elas tiveram um maravilhoso diálogo e o pedido que sempre se repetia era:

“Eu sou a Mãe dos Pobres, quero uma casa de oração nesse vilarejo. Prometo interceder por todos, porque acredito em vocês e vocês acreditam em mim”. E mais pediu que na casa de oração fosse construída uma fonte de água e disse: “Esta fonte é reservada à mim, às nações, aos doentes, para alívio de todos” (OLIVEIRA, p. 155, 2018).

O santuário de Nossa Senhora foi erguido em um morro por trás da Igreja Matriz, de modo que, das janelas do presbitério se avista a linda imagem. É uma bela e exultante expressão de fé e amor a Nossa Senhora que sempre nos mostra o Pai.

A ideia da construção do santuário surgiu da grande devoção do povo ilhagrandense à Jovem Mãe de Jesus e do convite de São João Paulo II, naquela época sumo pontífice. Por ocasião do segundo milênio do nascimento de Nossa Senhora, o papa dedicou os anos de 4 1987 – 1988 como ano mariano. Um belo convite à aproximação com Nossa Senhora que nos educa que devemos escutar o que o mestre nos ensina.

Contam os mais velhos que Pe. Pedro manifestou seu desejo de construir um santuário a um jovem amigo italiano e este de imediato prometeu ajudá-lo. Não demorou muito e o povo foi presenteado com uma imagem de Nossa Senhora Mãe dos Pobres com 4 metros de altura, com 300 quilos modelada em resina e mármore. A imagem chegou em 04 de janeiro de 1989. Foi recebida na Igreja Catedral, onde ficou exposta por três dias para veneração. Foi então no dia 07 de janeiro, em uma procissão com muito mais de 5.000 mil devotos que a imagem foi levada ao povoado Morros da Mariana. Segundo Dona Fátima, (2018): “foi um momento lindo, único. Lembro que rezamos, cantamos, e quando chegamos na Igreja Matriz participamos de uma celebração campal com a presença do nosso bispo do coração”

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 Enquanto o santuário ganhava os retoques finais, a imagem ainda ficou uma semana na Igreja Matriz onde foram realizados momentos marianos, oração do santo terço, oração do santo ofício. Depois de muito preparo, chegou o grande dia, era 15 de janeiro, quando se comemorava os 56 anos da aparição de Nossa Senhora à jovem. A imagem foi levada e colocada no seu devido lugar para veneração. Foi abençoada pelo bispo diocesano Dom Joaquim Rufino do Rêgo, celebração que contou com os fiéis de toda a paróquia.

 O santuário possui peças de argila que nos transmitem os principais acontecimentos da Igreja, as capelas da paróquia, os mistérios do santo terço, entre outras imagens. As imagens foram produzidas por um escultor local, Charles. O santuário tem ainda uma escadaria com 33 degraus que representam os anos de vida de Jesus e no percurso colunas com quadros da viasacra que vieram junto com a imagem da Itália. E uma fonte com água benta atendendo ao pedido da virgem que disse que aqueles que dela beberem receberão as graças que tanto necessitam.

 

DOS MUITOS RELATOS, ALGUNS SOBRE A CHEGADA DA IMAGEM DA MÃE DOS POBRES...

imagem atravessando a ponte Simplícios Dias

“Meu filho, foi uma experiência linda. Nos reunimos na Igreja pra pegarmos o ônibus para chegar até a Catedral e de lá sair em caminhada. Tinha muita gente... de Parnaíba... da nossa Ilha... de outras cidades... só sei que eu tentava olhar para trás e não enxergava o final da procissão. Pra ter noção, o que as primeiras pessoas rezavam, nós que estávamos mais atrás não ouvíamos. Rezamos o terço, cantamos, foi lindo...lindo” (Graça Cunha, 2018).

 “Assim que a imagem chegou em Parnaíba eu fui lá fazer as minhas orações. Lembro que tinha muita gente, chamou muito a atenção daqueles que por ali passavam, uma imagem grande, bonita que convidava à oração. Eu não lembro de ter participado da caminhada, não sei porque (risadas). Lembro bem que algumas pessoas que não tinham tanto convívio na Igreja reclamavam e se perguntavam o porquê da vinda dessa imagem. O fato é que coisas estranhas aconteceram com essas pessoas e foram associadas à um castigo pelos questionamentos feitos à imagem de Nossa Senhora” (Ionete Alves, 2018).

 “Ah eu participei da procissão de Nossa Senhora. Foi uma procissão muito bonita, tinha muita gente... muito carro... lembro que Pe. Pedro fez um livro e lá ele disse que participaram mais ou menos umas cinco mil pessoas. No percurso nós cantamos... rezamos... foi lindo... Agora eu não lembro da chegada na matriz, devia estar muito cansada (risadas altas). Agora lembro do dia que subimos o morro para colocá-la no lugar onde deveria permanecer. Foi outro momento lindo, com muitas orações e santa missa” (Neide Santos, 2018).

 “Ôh eu não lembro muito bem da caminhada, mas lembro que meu marido ajudou a levar a imagem da Igreja Matriz até o santuário e depois ajudou a colocar ela nicho que estava preparado” (Francisca Cunha, 2018).

“Participei sim. Tinha tanta gente, nós chegamos anoite na matriz. Lembro que a imagem foi colocada no carro, e o povo vinha caminhando atrás. Cantamos, rezamos, oferecemos a nossa Senhora os nossos corações, foi lindo. Lembro que as senhoras de mais idade vinham segurando no carro para ajudar a caminha mais rápido (risadas). Lembro bem que quando chegamos teve um grande show de fogos de artificio em comemoração à chegada da imagem. Eu não vi bem quando colocaram a imagem no nicho, pela quantidade de pessoas, mas depois tive a oportunidade de ver e contemplar” (Conceição de Maria, 2018).

 

E A HISTÓRIA CONTINUA...

Dando continuidade a esta história. Após 18 anos no Piauí, Pe. Pedro mais vez se aventura e a convite de Dom Edvaldo, arcebispo de Alagoas, chega à terra dos Marechais. Em 13 de fevereiro de 1999, tomou posse na Paróquia Virgem dos Pobres, tornando-se o primeiro pároco daquele lugar.

Depois de ter conhecido a comunidade paroquial formou o conselho pastoral e administrativo. Em seguida, iniciou a reforma da Igreja matriz que era apenas um galpão. Pouco a pouco, foi dando corpo físico à paróquia, construiu a casa paroquial, reformou as capelas das comunidades.

 Promoveu ainda muitos projetos caritativos, entre eles: “o Projeto para que todos tenham vida”. Trabalhou junto à Irmã Lucia e Irmã Magali, em um trabalho social de nutrição, educação e formação cristã das crianças sofridas das periferias da paróquia.

 

NO ÂMBITO PASTORAL...

Três pontos importantes se encontram em todas as Igrejas por ele construídas ou reformadas. O primeiro deles é Jesus na Eucaristia, porque somente Ele é tudo em todos. O segundo é o crucifixo, que nos lembra como nosso Deus não poupou a vida de seu Filho Unigênito para nos salvar. O terceiro é o ambão, a sagrada escritura na qual encontramos o caminho que devemos percorrer a verdade que devemos professar e a vida que devemos viver.

 Também, em todas elas se encontra a presença materna de Maria Mãe do nosso Deus e Senhor Jesus Cristo e Mãe da humanidade. Eis aí tua mãe. Com ela nós meditamos, rezamos e suplicamos à Santíssima Trindade para a unidade e santidade da Igreja povo de Deus.

Não nos restam dúvidas de que sua teologia pastoral se baseia no sair de si e ir ao encontro dos mais pobres, seguindo o que nos diz Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Tal metodologia consiste em acolher, formar e enviar como ensina o próprio mestre. Foram muitas as suas obras caritativas, nestas ele pode acolher, formar e os deixou com o conhecimento da verdade que é a vida em Cristo Jesus.

 

 

POR FIM...

 “Pois o zelo por tua casa me devora” (Sl 69, 10). Verdadeiramente Pe. Pedro é um homem totalmente entregue à Igreja, ao amor a Deus e ao próximo. Em suas orações sempre recorreu à providência divina, a fim de que, sempre o ajudasse em seus propósitos para com seu povo. Brincava dizendo: “onde peguei todo esse dinheiro para fazer essas obras humanitárias, que não são minhas, mas de Deus”. Já com seus 94 anos de vida, não se cansa de trabalhar, sempre disposto a atender espiritualmente a todos que o procure. Eis um testemunho profético de nosso tempo.

ESTAVÃO PRONDI SOUZA DA SILVA, Ilhagrandense, Licenciado em Filosofia pelo Instituto Católico de Estudos Superiores do Piauí - ICESPI e bacharelando em Teologia pelo mesmo instituto.


Ilha Grande - PI, 06 de setembro de 2020
Carta Ilhagrandense.

Dos Autores.
Ao povo.
Em homenagem aos grandes feitos de Padre Pedro.
Em agradecimento ao olhar paterno para Ilha Grande.


domingo, 30 de agosto de 2020

A FÉ QUE CURA.


 


“Com Deus me deito, com Deus me levanto, Com a graça de Deus e do Espírito Santo.
Se dormir muito, acordai-me, com todas as tochas de vossa Trindade, na mansão da eternidade”

 

Muito mais do que a ciência possa explicar, a arte do benzimento está além de qualquer explicação lógica que possamos encontrar e é algo muito forte da nossa cultura, quem nunca foi numa benzedeira em busca de curar um quebranto, tirar mal olhado, sol da cabeça ou levantar as arcas caídas?

Os benzedores e benzedeiras são encontrados em grande número em comunidades rurais e na periferia das cidades, e nesse espaço são muito valorizados e respeitados, exercendo papel de conselheiros em questões que vão desde a perda de objetos pessoais, dificuldades do matrimônio e financeiras e, claro, problemas de saúde e espirituais.

Em sua grande maioria a arte do benzimento é realizada por mulheres e vale lembra que desde a Idade Média, quando conhecimentos como esses eram visto de forma negativa, o que levou a condenação de muitas mulheres pela Inquisição, acusadas de bruxaria; a imagem negativa vinculada às benzedeiras  ainda existe atualmente, como se quem pudesse ajudar tivesse também o poder de destruir se assim quisesse.

Os pesquisadores do Carta Ilhagrandense conversaram com uma benzedeira, que aceitou colaborar  para esse texto; sobre o preconceito ela diz que: “ Eu não sinto muito preconceito não, mas as pessoas sempre acham que eu posso fazer o mal ou alguma bruxaria, uma vez uma mulher veio aqui dizendo que eu olhei pra planta dela e a planta murchou, eu disse pra ela “olhe minha senhora sua planta morreu foi por falta de cuidado”, isso me deixou chateada, e também gente que chega aqui pedindo pra fazer macumba eu não gosto disso não por que sou católica meus poder vem é de Deus”

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/07/01/reconhecidas-por-lei-benzedeiras-modernas-resgatam-tradicao-e-rezam-pelo-celular.htm


Antigamente a prática da benzeção era prioritariamente católica, o que restringia o local da prática às Igrejas e santuários por seus sacerdotes, sendo que, mais recentemente, religiões como a umbanda, o candomblé, os pentecostais e o kardecismo começaram a multiplicar as possibilidades de rituais, de significados e de desenvolvimento dessas práticas, desse encontro de diferentes religiões surgiu uma pluralidade de práticas sem que se perdesse a tradição do ritual, atualizando processos que atravessam os tempos.

Mas o conhecimento dos benzimentos está muito mais ligado a conhecimento popular, que é transmitido pela oralidade de pai para filho: o conhecimento das ervas, de oração antigas... tudo repassado pela tradição popular: 

“Minha vó rezava na gente desde pequeno, meu irmão que hoje já e falecido, quando era pequeno  nasceu uma coceira nele e não tinha remédio que acabasse, nessa época tudo difícil, medico difícil, remédio difícil a gente morava lá pelas bandas do Moia, era longe, ai ela que rezou nele seis sexta-feira, olhe na quarta já tudo limpo, ai desde desse tempo tive vontade de aprender e ficava tentando ouvir as palavras que ela dizia. Eu pegava as folha de pião e ficava imitando ela batendo os beiços”

Não diferente de muitas outras práticas tradicionais, que em meio a modernidade tendem a ter dificuldades de perpetuação, o benzimento também passa por esse processo, as benzedeiras geralmente são mulheres mais velhas e com elas se vai a pratica. 

“Eu aprendi com minha vó, minha mãe também rezava mas só menino novo, eu aqui tiro quebrante, mal olhado, o sol da cabeça, benzo os porcos, cavalo, cachorro...mas nem minhas filhas, nem as netas quiseram aprender, aqui pra benzer sou tem eu e a Maria, duas velhas se a gente morrer pronto”.

Trazer ao público este universo da cultura imaterial de nossa sociedade é preservar tradições e práticas que ajudaram a construir o que somos hoje. A sociedade atual e a futura têm direito a que seus valores sejam preservados.  Segundo o IPHAN, “os bens culturais de natureza imaterial dizem respeito àquelas práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão cênicas, plásticas, musicais ou lúdicas; e nos lugares" (IPHAN, 2016). Para a Unesco “ O Patrimônio Cultural Imaterial ou Intangível compreende as expressões de vida e tradições que comunidades, grupos e indivíduos em todas as partes do mundo recebem de seus ancestrais e passam seus conhecimentos a seus descendentes”(UNESCO, 2016). A pesquisa sobre as benzedeiras procura preservar dados e informações sobre este sujeitos que fazem parte da nossa comunidade.   

No Dicionário do Folclore Brasileiro, organizado por Cascudo (2000), não encontramos os termos benzeção ou benzedor/benzedeira, mas sim, rezador. O autor equipara os termos rezador e benzedor, indicando a possibilidade de serem confundidos. Indivíduo com poder de proteger as pessoas contra as doenças e outros males pela reza. Usa água benta, galhinhos de certas plantas, acende velas enquanto vai rezando, às vezes com expressões ou versos incompreensíveis. Muitas vezes, o rezador é benzedor e curandeiro, recomendando o uso de beberagem, emplastros, purgantes e chás. (CASCUDO, 2000, p. 588)

Eu quando era criança, cresci ouvindo falar de seu Raimundo Rezador, um homem que morava na comunidade em que eu moro, conhecida como fazendinha, seus benzimentos eram conhecidos até por outros estados, vinham pessoas do Maranhão, Ceará, São Paulo... meus irmão eram levados lá pra rezar quando doentes, eu também fui quando criança, sempre ouvir falar dessa pratica dos rezadores. Minha vó me contava uma história que quando eu era um bebê,  me levaram em uma senhora pra fechar  o corpo, era um processo de três sextas feiras de reza, antes de terminar a última sexta-feira, a senhora veio a falecer, e no dia que seria a última sexta-feira de reza, a noite enquanto eu dormia minha vó acordou e viu a imagem da senhora na minha rede me benzendo.

https://www.greenme.com.br/viver/costume-e-sociedade/2517-benzedeiras-rezadeiras-curandeiras-a-cura-pela-natureza-e-pela-fe/


        Trago esse relato pessoal pra mostrar o quanto as pessoas, principalmente mais velhas, tem esse conhecimento como algo muito forte, por que sempre aprendi que nunca se deve quebrar uma corrente de reza de uma rezador e nossa colaboradora fala também sobre isso. 

“ Se começar a fazer o trabalho tem que terminar, tem mãe que traz o menino pra rezar, ele melhora e ela não volta mais, ai o quebrante quando vem é mais forte e dá mais trabalho”.

A pratica do benzimento ainda sobrevive pelo conhecimento de homens e mulheres que dominam esse saber, muitos deles em idade avançada como no caso da nossa colaboradora um senhora de 65 anos. Para eles um dom dado por Deus, no qual se torna uma obrigação exercer, que durante a vida fazem isso de forma prazerosa, mesmo se vendo como veículos para a graça de Deus, contudo ainda sofrem com o preconceito que tem se arraigado na comunidade que os cerca.

 Escrito por: THALITA NASCIMENTO DE SOUZA, Licenciatura Plena em História, pela Universidade Estadual do Piauí.



Ilha Grande - PI, 30 de agosto de 2020
Carta Ilhagrandense.

Dos Autores.
Ao povo.

 

 

IPHAN. Patrimônio Imaterial. Disponível em : http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/234. Acessado:11/09/2016.

UNESCO. Patrimônio Cultural Imaterial. Disponível em: http://www.unesco.org/newq pt/brasilia/culture/world-heritage/intangible-heritage/. Acessado em: 20/09/2016.

CASCUDO, Luís da Câmara. DICIONÁRIO do Folclore Brasileiro. 9a Ed. São Paulo: Global, 2000.

domingo, 9 de agosto de 2020

MEIA NOITE NO BECO DA PERNINHA: Um causo do centro da cidade.

 

Quem nunca levou uma carreira de uma alma penada?

Vamos imaginar que as assombrações e mitos da Ilha se dividem em duas categorias: I) as assombrações errantes que andam sem destino e vivem a vaguear, como Lobisomens por exemplo; II) as assombrações fixas, que não se movem; habitando um ponto especifico como uma casa abandonada ou não, um cemitério ou becos e vielas escuras. 

Semana passada aqui no blog, tínhamos um exemplo de uma assombração errante; a Mulher Chorona vagueia e há relatos de aparições por toda a cidade, mas ela mais comum nas antigas áreas rurais como: Tatus, Cal, Baixão, Labino e Urubu. Assim também temos inúmeros relatos de Lobisomens em todos os cantos.


As assombrações fixas, procuram pontos estratégicos como, já citei: casas abandonadas e cemitérios. Creio eu não precisar de fontes para argumentar que, a urbanização e as assombrações estão ligadas por uma proporcionalidade inversa; quero dizer: quanto mais urbanizada é uma cidade, menos assombrações terá. O medo com certeza está ligado ao escuro, à dúvida. Dificilmente teremos relatos de lobisomens em um local iluminado e movimentado dia e noite, já nos interiores ele sairá toda lua cheia. Lendas urbanas como a Loira do Banheiro e o Mostro do Armário são uma especie de, como o próprio nome já sugere, consequência da urbanização. Sacis e Curupiras não se fazem comuns na mitologia atual, mas não me espantaria se ao conversar com pessoas mais velhas e/ou de locais mais periféricos, topasse com relatos dessas criaturas nos cajueirais da Cana Brava e Cutia por exemplo.

Sendo assim, veremos aos poucos e com o passar das gerações, nossos mitos se modificarem e perderem-se, pois ficarão retidos na imaginação de um grupo que viveu na época em que a história era contada. Para que fiquem registrados alguns desses contos, o Carta Ilhagrandense, através do nosso apoiador e colaborador Fabricio Costa, traz hoje A Lenda do Beco da Perninha; uma assombração fixa que, durante 3 décadas, assombrou uma viela que liga a Rua da Gloria e a Av. Martins Ribeiro, maltratando seus transeuntes após a meia noite.

 

A LENDA DO BECO DA PERNINHA

A lenda do beco da perninha é mais uma de varias lendas que existem no imaginário do povo Ilhagrandense, especificamente em uma parte da Rua da Gloria e outra parte da Avenida Martins Ribeiro. Antes de começar a falar da lenda é preciso saber onde fica localizado o Beco da Perninha.

A seta aponta para o Beco da Perninha, na parte superior a Avenida Martins Ribeiro e na parte inferior da seta a Rua da Gloria


O beco que, assim é chamado na cidade de Ilha Grande, é uma pequena via que liga a Rua da Gloria com a Avenida Martins Ribeiro, para muitos também chamado de Beco da Dona Chica Moreira, fica em frente a sede da Associação dos Moradores dos Morros da Mariana. Não se sabe ao certo em que ano a lenda começou a ser contada, porém os relatos começam no final da década de 80 ganhando força nos anos 90 e enfraquecendo em 2000.

O beco, visto da Rua da Gloria para Av. Martins Ribeiro.

O beco, visto da Av. Martins Ribeiro para Rua da Gloria.

A lenda é relatada da seguinte maneira: depois da meia noite, quando alguém passava no beco e chegava na metade do caminho, ouvia-se uns ruídos de galhos quebrando, em seguida algo, um vulto que se parecia com uma perna, aproximava-se e aplicava chutes ou uma rasteira na pessoa que corria levando chutes até o final do caminho. Saindo do Beco da Perninha a perseguição parava.

Muitos relataram ter sido vitimas da Perninha, assim as pessoas: crianças, jovens e adultos evitavam passar no Beco da Perninha até mesmo antes da meia noite; era comum os moradores dar uma volta no quarteirão buscando outros caminhos para não passar pelo beco. A história foi sendo repassada até no começo dos anos 2000, a partir disso ela foi sendo enfraquecida com a urbanização da cidade, o beco que era mais estreito ficou mais largo, a areia deu lugar às pedras de calçamento, os matos foram cortados, o beco ficou iluminado e casas foram construídas. Assim, com o passar do tempo, as pessoas foram perdendo o medo; já que antes o famoso beco era escuro e com matos, e hoje é até bem movimentado.

A Lenda do Beco da Perninha ainda hoje é lembrada nas rodas de conversas dos que vivenciaram o auge da mesma, são as crianças e jovens da época. Hoje com seus 30 à 40 anos, já não causa tanto medo. Como foi dito no começo, essa lenda é mais conhecida em uma parte dos   moradores da Rua da Gloria e Martins Ribeiro.

Francisco Fabricio Pereira da Costa, funcionário público, ilhagrandense, licenciado em história, INTA-FID.


Muitas histórias assim estão guardadas na imaginação popular, conte com a gente para contar a sua. Deixe nos comentários os locais assombrados da cidade que você conhece. 


  Ilha Grande – PI, 09 de agosto de 2020.

Carta Ilhagrandense.

Dos autores ao povo, em especial aos pais.


 

domingo, 2 de agosto de 2020

“Agosto, o mês do desgosto”


Você já ouviu dizer que, agosto não é um mês auspicioso?

No dia 2 de agosto de 1934, há exatos 86 anos, Hitler se tornou líder da Alemanha. Nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, Hiroshima e Nagazaki foram destroçadas pelas bombas atômicas, matando de uma só vez o mesmo que a Covid matou no Brasil até agosto de 2020, algo em torno de 90 à 100 mil pessoas. Em 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas, então presidente do Brasil, se matou. E em 21 de agosto de 1961 Jânio Quadros renunciou à presidência.

Fatos assim, já aconteceram em outras datas, mas crenças bem mais antigas corroboram para a reputação do mês, por exemplo: no Século 1, os romanos viam a constelação de Leão e acreditavam que era um enorme dragão que estava cuspindo fogo no céu.   A expressão “casar em agosto traz desgosto” que, viria a se tornar “agosto, o mês do desgosto”, ficou famosa em Portugal 14 séculos depois, pois era nesse período (agosto) que as caravelas costumavam sair, e as recém casadas temiam ficar sem seus maridos.

Para esse mês tão cheio de suspeições e crendices, o Carta Ilhagrandense pediu para os colaboradores escreverem sobre as crenças, costumes e superstições da cidade.

Há não muito tempo, a população de Ilha Grande, sem energia elétrica e com ruas de areia branca, sentava-se na frente de casa para conversar durante a noite. Muita coisa era falada, mas as histórias de assombração faziam muitas crianças mijarem nas redes, com medo de ir ao banheiro que, nessa época ficava fora de casa. O tempo passa, mas as histórias continuaram sendo reproduzidas. Agora, Samuel vai nos contar como foi sua experiência com o sobrenatural e você, sinta-se à vontade para deixar seu causo nos comentários dessa postagem.

Nunca fui muito crédulo em achar que o mês de Agosto fosse tão cheio de superstições, porém posso dizer que o caso que pude presenciar aconteceu nesse mês. A mesma descrença que eu tinha do mês de Agosto ser "carregado ", assim também era minha visão acerca do sobrenatural e dos mistérios que pairava sobre esses 31 dias, ou seja, não acreditava em "visagem". O Carta Ilhagrandense, anteriormente, já apresentou em um de seus textos sobre a viagem ao Cutia. Foi em um desses passeios, durante a lua cheia de agosto, que esse episódio que pretendo contar aconteceu. Vamos lá.

 

Toda minha infância foi recheada de estórias de assombrações, fantasmas, monstros, almas penadas (não me perguntem a diferença, eu não sei), que os mais velhos contavam pra encher nossa imaginação de dúvidas ou não, pois alguns acreditavam. De lobisomens à mulher que se transformava em porca, Não-Se-Pode um ser que crescia sem parar a medida que se afastava de nós e muitos outros que perturbavam nossa mente, e em especial a Mulher Chorona, tema do nosso assunto.


As assombrações são externadas de duas formas. Absorvemos crenças de outros lugares e refletimos em um personagem da própria cidade, como apontar fulano ou ciclano como lobisomem, sendo que a crença em homens-lobo aparece em obras de filósofos antigos, como Heródoto (Mula sem cabeça e bruxas estão nessa classe). Ou podemos externar nosso medo em almas não identificadas que fazem parte do folclore, como o Velho do Saco, o Assobiador e o Gritador.   

 

Era Agosto, uma sexta-feira, o primeiro dia de um fim de semana cheio de diversão. Como sempre o dia era repleto de atividades, cada grupo responsabilizava-se pela sua tarefa e as refeições era o que marcava o tempo. O café da manhã já tinha ficado para trás. Depois de uma manhã cheia de trabalho, o almoço era a refeição principal, uma iguaria, até quem não gostava de peixe comia sem resistir. Os olhos brilhavam ao ver borbulhar em um tacho com carás, cajus e uma variedade de temperos. Nossa! E a janta, o tradicionalíssimo "sapeca", era a última refeição do dia.

 

Depois do jantar, todo mundo procurava uma lagoa para banhar, vestia-se roupas adequadas para a noite na beira da praia, o vento frio estava por vir. A noite começa, uns se aquecem ao redor da fogueira enquanto outros se preparam para algazarra e eu nem poderia imaginar que mais tarde seria espectador de um fato inexplicável e depois poderia contar tendo eu, o presenciado.

Todo mundo sabe que, beira de praia é lugar visagento (assombração tem vários nomes em Ilha Grande: visagem, marmota, aparição...).


 

Das 19:00 às 22:00 a criançada, inclusive eu, corria sem cessar, eram várias brincadeiras em uma só noite, esconde-esconde, bandeira, anel de pulo, cai no poço, e outras muitas, mas o importante era não cansar, impossível, alguns ainda na brincadeira baixava suas redes que ficavam dentro do rancho - local onde armavam-se as redes e nos guardavam do "relento" (céu aberto e frio) - e a criança que tinha ficado para procurar as outras sofria para achar quem já estava no segundo sono. Haha a galera era má! Os mais novos já tinham desistido da batalha, ou melhor, da brincadeira. Quando me dei conta apenas eu tinha sobrado.

 

Os mais velhos estavam no "esquema" e como sempre aparecia alguém pra atrapalhar. Esse alguém era eu. Ora, se tratava de pessoas minhas, minhas irmãs, atrapalhava mesmo! Eu chegava de fininho e me infiltrava no meio deles, pois eles não tinham horário para dormir, porém, de vez em quando escutava alguém dizendo: -- "menino, vai dormir" e eu nem "thuiú". No intuito de forçar as últimas crianças a irem deitar, começavam as estórias de assombração e todo mundo sempre tinha alguma para contar, às vezes, inventavam, outros relatavam casos de outras pessoas, mas ninguém saia sem contar um "causo".

 

Nós éramos umas 6 (seis) pessoas na turma que ainda estava fora do rancho. As estórias provocavam em nós uma mistura de muitas coisas: ansiedade, medo, tensão, adrenalina, calafrio, e ora ou outra alguém dizia: "negrada o que é aquilo ali heim? Hahaha, até visões provocava. Já eram meia noite e meia justinho, lembro do meu cunhado dizer isso pra minha irmã e ela responder "1:00 hora vamos entrar pro rancho". Estória vai, estória vem… de repente chega correndo um saliente da turma chamado Splayt. De tanto mentir e de "cara lisa" ninguém acreditava mais nele, mas dava pra perceber um certo espanto em seu rosto, o "filho da mãe" também era um excelente ator, assustado ele falou:- Rocês tão ouvindo isso aí negrada? Então todos pararam e fizeram silêncio para ouvir melhor. Ninguém queria ser o primeiro a dizer que tinha escutado, talvez para não assustar os outros. Eu já tinha escutado, contudo, não ia dizer pra não ser taxado de mentiroso, mas aí não teve jeito! Quando minha irmã mais velha começou a chorar de medo, a galera logo sacou que o lamento da "visagem" já tinha sido percebida por todos.

A Mulher Chorona é uma dessas estórias de assombração que ouvimos ao redor da fogueira. Uma das versões sobre sua origem relata a tragédia de uma mulher rica e gananciosa que, ao perder o marido, perde também sua fortuna e, não suportando a miséria, afogou seus filhos e matou-se, mas retornou para penar por seus crimes. Foi ela que ouvimos naquela noite.


La Llorona (A Chorona) é uma lenda mexicana e talvez seja a fonte da ideia principal para as demais versões. Sua origem é incerta, até porque existem várias. A mais aceita remota o período colonial e é baseada nas crônicas de Bernal Díaz del Castillo, que participou da conquista do Império Mexicano. Diz Bernal Díaz del Castillo que, La Llorona era uma mulher de origem indígena, amante de um cavalheiro espanhol. Quando a jovem lhe pediu para formalizar o relacionamento, ele se recusou, pois pertencia à alta sociedade. Esse, basicamente, foi o estopim que desencadeou a tragédia pela qual sua alma vagaria em tristeza. Ainda de acordo com as crônicas, na noite em que foi rejeitada, La Llorona assassinou seus dois filhos, um menino e uma menina. Após perceber o que havia provocado, emitiu um grito arrepiante. O mesmo que dizem escutar hoje. O mito ganhou até adaptação para o cinema em 2019.

 

O primeiro lamento foi o mais perceptível, todos que estavam na turma escutaram. Era uma espécie de pedido de misericórdia, quando a Mulher Chorona tentava pronunciar algumas palavras, algo como um pedido de socorro, cães, que ninguém sabe de onde saíam, começavam a rosnar e latir, como se impedissem que o pedido fosse completado. Logo em seguida, a "alma" começava a chorar dando a impressão de que estava sendo mordida. Nós nos perguntávamos: "como pode um lugar a uns 8 (oito) km de distâncias da cidade, um local quase inabitado, estar cheio de cães? Ninguém ousava dar explicações. Não sabíamos ao certo de onde vinha, mas estávamos certo que aquilo estava acontecendo e que ela passava logo ali a frente.

 

O segundo choro da assombração estava distante, agora bem menos audível, em questão de segundos tinha percorrido um trecho de mais ou menos um quilômetro. Assustados e atentos, em silêncio estávamos nos preparando para ouvir a terceira súplica. Minha mãe que estava dentro do rancho, mas ainda acordada, ao perceber o choro da minha irmã e o lamento da assombração, saiu para saber o que estava acontecendo e disse:- “vocês não vão entrar não? Passa pra dento todo mundo”. Foi então que percebi que a maioria das crianças estavam aflitas, pois o lamento foi percebido até por quem já estava deitado. Minha mãe tentava acalmar alguns que estavam chorando porque tinham escutado e ficaram com medo.

 

Uma vez me disseram - não lembro quem- que assombração só pode ser vista ou ouvida por uma pessoa. Depois desse fato pensei: " rapaz, eu tive sorte por ter escutado e compartilhado o som de uma "alma". Fiquei com medo no primeiro momento, mas depois senti pena da "chorona", tadinha, nem conseguia pedir misericórdia, talvez seu pecado deva ter sido enorme pra não ser perdoado.

 

Caro leitor, espero que tenha gostado da leitura. Se não acredita, não tem problema porque sua dúvida faz sentido, afinal, se não tivesse acontecido comigo eu também não acreditaria.

SAMUEL RIBEIRO, funcionário publico, ilhagrandense, com formação em Letra Português pela  UESPI- Parnaíba.

  Ilha Grande – PI, 02 de agosto de 2020.

Carta Ilhagrandense.

Dos autores ao povo.


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domingo, 12 de julho de 2020

Sobre o diagnóstico da Covid-19 em Ilha Grande.

Notificação de casos de Covid-19 em Ilha Grande

Gráfico mostra o desenvolvimento dos infectados, curados e óbitos da Covid-19 em Ilha Grande de 08 de maio a 11 de julho de 2020.
(Dados obtidos pela página da Secretaria de Saúde de Ilha Grande) 

       Nos últimos dias a cidade de Ilha Grande foi bombardeada pelo aumento de casos da doença do novo coronavírus e a cidade viu o número de infectados atingir a primeira centena, o que levou a diversos questionamentos sobre a veracidade das notificações. Escutamos relatos como: “qualquer gripe agora é coronavírus” ou “isso são os políticos tentando ganhar mais dinheiro”, mas antes de expressar tais afirmações é importante perguntar: você sabe como é feito o diagnóstico e notificação de casos de Covid-19?


    O Carta Ilhagrandense conversou com Jaiane Cruz, ela é formanda do curso de biomedicina da UFDPar, moradora de Ilha Grande e colaboradora do nosso blog. O biomédico está apto a auxiliar no diagnóstico e avaliar clínico-laboratorialmente as doenças, os agentes etiológicos e os vetores, seja na atuação hospitalar ou na pesquisa, emitindo laudos e pareceres concernentes aos diversos aspectos fisiopatológicos dos pacientes, além de realizar pesquisas para a descoberta de novas doenças e novas curas. Fique então com o texto dela.


        "É necessário saber que todas as notificações, de casos confirmados, são feitas após a realização de testes diagnósticos; não sendo feitas apenas com base em dados clínicos observados pelo médico, sendo assim, nem toda gripe é considerada coronavírus. Porém todo caso de Síndrome gripal deve ser relatada, não aparecendo nos boletins das Secretárias de Saúde. Quando um desses casos é confirmado como sendo causado pelo novo coronavírus, é realocado como tal. 

        No início dos casos, a mais ou menos 4 meses, apenas os testes moleculares eram realizados, aqueles cujas amostras são secreções respiratórias obtidas por swab nasofaríngeo (cotonete estéril), a imagem da coleta ficou bem conhecida. Os testes moleculares detectam o próprio agente patológico e podem ser feitos a qualquer momento após a infecção, tendo sensibilidade e especificidade mais elevadas que os testes sorológicos (amostra de sangue). Entretanto, sua execução é mais demorada e demanda estrutura laboratorial e profissional que é pouco encontrada no Brasil.

Swab nasofaríngeo.

        Por essa razão o governo decidiu investir em teste sorológicos, conhecidos também como testes rápidos, esses fazem a detecção de anticorpos IgM e IgG produzidos especificamente contra o covid. O IgM é o primeiro anticorpo produzido após a infecção e se mantém até a eliminação total do antígeno viral, os casos considerados recuperados são aqueles em que esse anticorpo não está mais presente. Já o IgG é o anticorpo de proteção, produzido tardiamente na doença e permanecendo após a recuperação, esse é um dos anticorpos que denotam permanência da imunidade, esperando-se que persista por muito tempo no organismo impedindo uma reinfecção, para o coronavírus tal imunidade ainda é incerta, não se sabendo ao certo se há, nem a intensidade ou o período de permanência.

           É recomendado a realização do teste sorológico a partir do 7° dia de sintomas, quando se espera que os anticorpos estejam em maior concentração; dessa forma aumentando a porcentagem da sensibilidade do teste, já que estes, infelizmente, pecam em sensibilidade principalmente quando realizados nas fases iniciais. O que isso quer dizer? Que eles têm uma propensão maior a dar um resultado errado, o chamado falso-negativo, por isso o Ministério da Saúde aconselha que o resultado desses testes não seja utilizado isoladamente, mas que também se leve em consideração sintomas e contato com pessoas sabidamente positivas.

        As notificações são realizadas após a testagem, sendo  casos confirmados todos aqueles que apresentam IgM positivo, casos recuperados os IgG positivo e IgM negativo, os que apresentarem teste negativo para ambos são descartados do boletim. Trago abaixo ilustrações de dois modelos de informe epidemiológicos adotados pela cidade de Ilha Grande, e explico os dados expostos, atualmente:

Figura 1. Informe epidemiológico da cidade de Ilha Grande do dia 24 de abril, primeiro caso confirmado.

Figura 2. Informe epidemiológico atual da cidade de Ilha Grande do dia 11 de julho.

        Observe que ao longo do tempo alguns elementos deixaram de ser expostos, isso ocorre pois os números de casos suspeitos, descartados e notificados elevam-se bem mais do que os confirmados e deixa de ser útil expô-los. Além de que a partir do momento em que o vírus se instala na comunidade e a busca por contatos é de difícil execução todos os indivíduos são considerados suspeitos, apresentando sintomas ou não, o estágio conhecido como "transmissão comunitária".

        Além da notificação de casos de covid todos os casos de Síndrome Gripal e de Síndrome Respiratória Aguda Grave também devem ser notificados, caso o diagnóstico para coronavírus não seja realizado na oportunidade. Aqueles que posteriormente realizarem o teste e apresentarem resultado positivo deveram ser renotificados e apresentados no boletim. Todos os casos devem ser acompanhados e para a notificação é necessário que o paciente preencha uma ficha com dados como: cpf, identidade, endereço, etc.


Gráfico mostra o número de pessoas infectadas e número de habitantes de algumas cidades do norte do Piauí.



        Espero, caro leitor, que a partir das informações sobre a dinâmica de notificação você possa ser crítico sempre que ouvir as frases expostas no início desse texto. Não há como descartas as manipulações, principalmente quando observamos o país em que vivemos, porém não é arbitrariamente que as notificações são realizadas, propagar tais ideias como se fossem verdades absolutas sem a consciência de que há todo um processo por trás, pode trazer males imprescindíveis. Já que, quanto menos pessoas se cuidarem, as vezes guiadas por esses pensamentos errôneos, mais o vírus se alastra, e no final é tudo que um parasita obrigatório como ele deseja, não é?"

Figura 3 Charge sobre o coronavírus no Brasil, disponível no instagram @gram.positivo


            Ilha Grande – PI, 12 de julho de 2020.

Carta Ilhagrandense.

Dos autores ao povo.
Agradecemos aos leitores.