sábado, 7 de março de 2020

Sobre os movimentos politicos




     III - EMANCIPAÇÃO EM VERTIGEM: Ilha Grande está mesmo emancipada??

Arquivo pessoal Henrique Sertão

Ilha Grande - PI, 01 de janeiro de 1997. O  desfile que vemos acima ilustra a nova cidade no final da década de 90, ao fundo da imagem vemos o que hoje é uma padaria, uma farmácia e uma mercearia. Em plano mais próximo ao fotografo, a esquerda da foto, está a Unidade Escolar Marocas Lima, onde acabaram de ser empossados os vereadores: Antônio de Pádua dos Santos Carvalho (Antônio Almir)(PPB), Antônio José Carvalho de Farias (Zezé)(PFL), Raimundo Nonato dos Santos Souza (Nonato Lino)(PSDB), Manoel Carvalho Nascimento (Manoel Loiro)(PT), Francisco José da Costa (Prego)(PSDB), Alberto Jorge da Costa Carvalho (Betinho)(PFL), Francisco José Gomes Oliveira (Neto do Zé Toinho)(PPB), João Batista Costa Gomes (Batista Gregório)(PSDB) e Rogério Linhares Costa (PFL); o prefeito e seu vice José Osmar da Silva Filho (Professor Osmar). No momento da foto, o povo passava em frete ao que hoje é a Colônia de Pescadores Z7 e seguia em direção as instalações da nova Câmara Municipal.

 Com toda luta do povo, cujo o sofrimento mostramos no primeiro texto (O brado de Isabel e Mariana) e todas as negociações, sobre os dotes que a Ilha teria que pagar para os políticos parnaibanos que vimos no segundo (O processo de divisão da Ilha), nessa data Henrique Penaranda Sertão Machado (Henrique Sertão)(PSDB), tomou posse como primeiro mandatário de 122 km2 dentro da Ilha Grande de Santa Isabel (total 240 km2) no extremo norte do estado.

Além do empossado, disputaram para ser chefe do poder executivo: Carlos Alberto Vieira De Sousa (Doutor Carlos)(PTB), citado durante nossas entrevistas como um dos responsáveis pelo “Grupo do NÃO”, recebendo 228 votos; José Ferreira De Oliveira (Zequinha Conceição)(PPB), hoje dono de uma das primeiras padarias da cidade, recebeu o voto de  589 eleitores; Magno Antônio Brito Costa (Magno Brito)(PT),  militante no Partido dos Trabalhadores desde a época pré-emancipação, cativou apenas 688 votos, mas manteria frequência nas campanhas eleitorais seguintes; Paulo Rogério dos Santos Souza (Paulo Rogério)(PFL) conquistou o segundo lugar naquele ano com 848 votos, perdendo a primeira colocação por uma diferença de menos de meia centena.

Henrique Sertão se fixou como residente da Ilha, já com o processo de emancipação em andamento. Durante entrevista com os pesquisadores do Carta Ilhagrandense, ao ser perguntado se havia participado do movimento de emancipação, eles diz:

Quando eu cheguei aqui em 1991, o movimento de emancipação já existia, certo. Ele foi iniciado realmente nos anos 80, depois de 85. Mas participei ativamente da emancipação quando se reuniam ainda poucas pessoas, eram 8 pessoas que se reuniam, geralmente ali do lado da igreja.”

Responsável por trazer o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) para Ilha Grande, após a emancipação, o tucano agregou filiados para seu partido no período de 1994 à 1996, pois sabia que para ser eleito deveria redirecionar o apoio popular que até então estava com o PT. Quando questionado sobre a formação dos partidos políticos dentro da Ilha, fala que:

Até então havia um só partido como um todo e o PT já era estruturado. Mas eu, particularmente, já fazia parte de um partido político que era o PSDB, só que eu ainda estava em Parnaíba. Ai quando houve essa emancipação política, eu trouxe o partido para cá. Trouxe o Partido do PSDB para o município e filiamos algumas pessoas...”

           Com isso, o administrador de empresas, Henrique Sertão, manteve-se no poder nos períodos de 1997 à 2000 e de 2001 à 2004, quando praticamente duplicou o número de eleitores, recebendo 1770 votos na sua reeleição.






Arquivo pessoal Nonato Lino

Mesmo emancipada, a política ilhagrandense sofreu influências da velha politica parnaibana. Na foto registrada em julho de 1997, em uma reunião no Porto das Barcas na cidade de Parnaíba, podemos ver os vereadores Antônio de Pádua dos Santos Carvalho (Antônio Almir) e Raimundo Nonato dos Santos Souza (Nonato Lino) ao lado de Mão Santa, que na época estava em seu primeiro mandato como governador do estado. Antônio de Pádua era então, o primeiro Presidente da Câmara Municipal de Vereadores de Ilha Grande, aos 22 anos foi eleito com 136 votos, consagrando-se como o vereador mais bem votado daquele pleito. Sendo eleito o chefe do legislativo foi ele quem empossou os primeiros políticos da cidade. Dona Marlene Maria Rodrigues de Souza, esposa de Nonato Lino, ali de frente para o fotografo, ocuparia uma das cadeiras do plenário ilhagrandense entre os anos 2013 e 2016, sucedendo assim seu marido que ficou por 8 anos como vereador na cidade. A filha do casal, Arady Rodrigues de Souza, senta-se na cadeira de seus pais no atual mandato e foi quem presidiu a Casa durante o ano passado (2019).


Arquivo pessoal Magno Brito


No dia 26 de janeiro de 1994, quando o então governador do estado do Piauí sancionou a lei que emancipou Ilha Grande, foi registrada essa fotografia, nela aparecem Paulo Rogério (de camisa semiaberta) e Magno Brito olhando em direções opostas. O primeiro já disputava campanhas eleitorais para vereador nas eleições parnaibanas antes da emancipação e o segundo galgou sua carreira política junto ao PT da cidade. Rivais nas duas primeiras eleições, 2º e 3º lugar respectivamente, uniram-se em 2004 e com 2.578 votos ficaram no poder de 2005 à 2008. A população deixou Maria José dos Santos Monteiro (Profª Mazé)(PSDB) em terceiro lugar na campanha, com 1.172 votos a aposta de continuidade do PSDB no poder falhou aquele ano. Para o segundo lugar os ilhagrandenses reservaram 1.583 votos e com apenas 2 mandatos de vida política, as portas da prefeitura observaram, imparcialmente, a aproximação de sobrenomes da velha política parnaibana. Relembre nossos textos com a fala de Magno Brito e de José de Ribamar Costa (Zé Espanhol) sobre a divisão do território durante entrevista com os pesquisadores:

 “Inclusive tem um fato que eu quero colocar para vocês, aqui a Ilha com o Projeto original, era toda a Ilha com a divisão do Oceano Atlântico, Rio Parnaíba e Rio Igaraçu. O projeto apresentado inicialmente foi esse. E o João Silva e o Moraes Souza apresentaram uma emenda, dividindo a Ilha. Alegando que Parnaíba não poderia ficar sem praia. E no dia da votação marcada, eles entraram com essa emenda. Não teve como emancipar ela toda, então a Ilha ficou dividida.” Magno Brito.



“Porque eu mais o Dr. Carlos queríamos que fosse a ilha toda, nos iriamos entrar lá pra brigar por isso. Nós fomos expulsos e não tivemos voz e nem vez. O irmão do Herbert Silva chamado João Silva Neto, Deputado, impôs e nós aceitamos, mas tirando a Pedra do Sal e ficando esse negócio aqui e eu com o Dr. Carlos nos levantamos também, porque isso não estava certo, essa imposição. E ficou do jeito dele, porque ele era Deputado.”
Zé Espanhol



Herbert de Moraes e Silva (Herbert Silva)(PMDB), carregando os sobrenomes mencionados nos trechos, disputou como candidato a prefeito a segunda vez na campanha de 2008 e mais uma vez perdeu o primeiro lugar, dessa vez para a ex primeira dama Joana D’arc Ribeiro Machado(PSDB), a senhora de azul da primeira imagem ganhou a confiança de 1.522 eleitores e ficou como chefe do executivo municipal entre os anos de 2009 e 2012.



Herbert Silva no centro da imagem, abraçando Paulo Rogério e a irmã "Raimundinha do Paulo Rogério".

No dia 07 de outubro de 2012, comemoraram ao fim da contagem dos seus 2.253 votos depositados nas urnas ilhagrandenses, o atual prefeito da cidade Herbert Silva e o ex prefeito Paulo Rogério, que havia indicado sua irmã para a posição de vice, e assim chefiaram durante o seu primeiro mandato que durou de 2013 à 2016.  A coligação deixou para trás José Hélio de Carvalho Oliveira (Dr. Hélio)(PSD), o especialista em anestesia, nasceu em Canto do Buriti e cativara boa parte dos ilhéus ao prestar auxílio médico, tanto que conquistou 1.786 votos. Dr. Hélio disputou campanha para deputado estadual do Piauí e conseguiu a vaga nas eleições de 2014.


O então candidato a reeleição Herbert Silva em discurso na campanha de 2016, entre Edmar (Sargento) e Paulo Rogério.

         Para as eleições de 2016, Herbert Silva mudou sua estratégia e coligou-se com o PR (Partido da República), apoiado por Dr. Hélio, que na época já estava em segundo ano de mandato, desfez sua união com Paulo Rogério e recebeu como vice o vereador Edmar Pereira dos Santos, ele que exerceu dois mandatos pelo Partido dos Trabalhadores, acabara de se filiar ao PR e foi aposta certa. Marina Brito (PSDC), a segunda colocada naquele ano, aposentada pelo INSS, já é pré-candidata em 2020. Ela concorrerá com Bernadete Leal de Souza (Bernadete Leal, atual secretária de saúde do município), que tentou uma vaga no legislativo parnaibano na eleição passada(2016) pelo PR, será  cotada para dar continuidade a amizade entre Silva e Hélio.

Para fechar o movimento político ilhagrandense até a atualidade, deixamos mais um trecho da entrevista com senhor José de Ribamar (Zé Espanhol):


“Aceitaram (a emancipação com a divisão), mas agora por que tem um prefeito aqui que era contra? Que independência eles trouxeram de Paranaíba para cá? Ainda não assumiu nenhum prefeito de Ilha Grande: Henrique Sertão do Maranhão, Joana D’Arc é de Parnaíba, Paulo Rogério da Goiabeira do Maranhão. E cadê essa independência?” ... “Eu não fui contra a emancipação, entendeu? mas a maneira que foi imposta.”


Vivemos em um país que, em redes sociais esbraveja conhecimento político, mas em que cenas como essas, apresentadas nesse conjunto textual, emudece e se deixa entorpecer por falsa democracia. Somos sujeitados a fazer uma escolha, que de fato não almeja o mesmo que o povo. Os estranhos em que votamos, são pessoas que desejam o ganho pessoal, que fazem investimentos e visam retorno: lucro, poder. Um dos leitores deste blog questiona a emancipação de nossa cidade e crítica a ação:  “não adiantou de nada, infelizmente continua um lugar dependente de Parnaíba em todos os sentidos”. “... continua um lugar dependente...” ao invés de: “...continuamos um lugar dependente...” mostra o quanto o autor da frase sente-se distante da condição de: cidadão; morador; ilhéu; povo. “Não adiantou de nada”. Na escola do pobre não ensinam o significado de independência. 
Como uma criança aprendendo a caminhar, Ilha Grande, uma hora aprenderá a desprender-se do corpo da mãe, irá correr e arrancar tampões dos joelhos. Esperamos estar por aqui para acompanhar seus primeiros passos independentes. 








Ilha Grande – PI, 07 de março de 2020
Carta Ilhagrandense.

Dos Autores ao povo.




Agradecimentos
O Carta Ilhagrandense agradece ao Senhor Henrique Penaranda Sertão Machado e sua esposa Joana D'arc Ribeiro Machado, por sua disponibilidade em receber os pesquisadores e fornecer um acervo fotográfico tão importante para ilustrar nosso texto. Junto ao senhor Henrique agradecemos ao senhor João Batista Costa Gomes, que explicou tão bem os movimentos políticos durante a entrevista e ao senhor José Osmar da Silva Filho, que nos doou seus escritos, fonte de pesquisa. Ao senhor Magno Antônio Brito Costa, que junto a sua família  nos concedeu  tempo e  fala, além de imagens de grande importância para ilustrar o momento histórico.  Ao senhor Raimundo Nonato dos Santos Souza e sua esposa Marlene Maria Rodrigues de Souza, que aceitaram dividir suas fotografias. Ao nosso amigo Antônio de Pádua dos Santos Carvalho, que durante o desenvolvimento dos textos, ouvia de bom grado os questionamentos, nós fornecendo sempre ajuda. Ao nosso colaborador Alberto Jorge da Costa Carvalho, que também nos cedeu textos fonte.  À Paroquia Nossa Senhora da Conceição, que graças aos cuidados de Padre Pedro Quiriti resguardou boa parte da documentação que usamos na pesquisa. À Câmara Municipal por nos fornecer a maquina para digitalização de alguns documentos. Aos amigos e cônjuges, por entender nosso empenho. À todos os leitores e apoiadores.
Nosso muito obrigado!!!  



Propostas do então, candidato a Vereador na cidade de Parnaíba, Paulo Rogério em 1992.
Arquivo da Paroquia. 


Fichas de filiação do PSDB de 1995.
Arquivo pessoal Henrique Sertão.

Abertura da Câmara Municipal de Ilha Grande 01/01/1997.
Arquivo pessoal Henrique Sertão.


Pose para foto de costas para a igreja Nossa Senhora da Conceição e de frente para a Câmara Municipal 01/01/1997.
Arquivo pessoal Henrique Sertão.




Foto da Galeria dos Presidentes da Câmara Municipal de Ilha Grande.



Primeira formação do plenário Ilhagrandense 1997. 
Arquivo pessoal Henrique Sertão.

Interior da Câmara, Vice-Prefeito, Prefeito e Primeira Dama, aguardam para compor a mesa de honra, 1997.
Arquivo pessoal Henrique Sertão.



Primeiros ocupantes dos Poderes Legislativo e Executivo.
Arquivo pessoal Henrique Sertão.

Palanque do PMDB no ano de 2012, Herbert Silva em seu discurso e Paulo Rogério levanta os polegares para o registro. Ao fundo podemos observar a imagem de divulgação da dupla, até poucos dias antes da eleição, quando a candidatura de Paulo foi impugnada, momento em que ele indicaria sua irmã para a vaga.

Herbert silva e Paulo Rogério pousam para foto nas comemorações do aniversário de 20 anos de Ilha Grande.

Mão Santa, Herbert e Paulo.
O secretário estadual de justiça Daniel Oliveira, deputado Dr. Hélio, governador Wellington Dias, prefeito Herbert Silva e primeira dama Michele Freitas.
Edmar Pereira dos Santos e Herbert Silva Pousam para foto no dia da posse 01/01/2017.
 Vereadora Arady Rodrigues de Souza e seus pais, o ex vereador Nonato Lino e a ex vereadora Marlene Rodrigues.


Perfil do Facebook de Marina Brito. A imagem mostra onde a pré candidata diz morar.

Dados da ex candidata a vereadora parnaibana Bernadete Leal, pré candidata a prefeita em Ilha Grande.







domingo, 1 de março de 2020

Leitura Complementar: POR TRÁS DA PEDRA, O MAR E O SOL.


Créditos: Conheça o Piauí                            

POR TRÁS DA PEDRA, O MAR E O SOL: O caso da comunidade Pedra do Sal Parnaíba/Pi
Denilson Damasceno Costa
Bacharel em Turismo pela Universidade Federal do Piauí, e-mail: denilsoncosta.ufpi@gmail.com/ contato:(86) 994494859.
RESUMO
Praia da Pedra do Pedra do Sal, comunidade situada a 17 km da cidade de Parnaíba no estado do Piauí, o povoado é considerado zona rural da cidade, potencial turístico por estar nas proximidades do Delta do Parnaíba e com atrativos naturais inexplorados como trilhas ecológicas, o uso das lagoas que se formam no inverno, o artesanato, os passeios pela praia e encontro das águas, citando também a própria história local e a paisagem exuberante do pôr do sol. Este resumo pretende mostrar um pouco da realidade desta comunidade e as transformações sociais e “políticas” locais. Logo surge o interesse pelo tema enquanto pesquisador e morador deste bairro relatar através de vivencias do cotidiano com um olhar mais nas questões sociais, econômicas e políticas, no que diz respeito ao não desenvolvimento da Pedra do Sal. É de suma importância salientar que há poucas pesquisas relacionados a temática.
BREVE RELATO SOBRE O MODO DE VIDA DA COMUNIDADE PEDRA DO SAL
Situada na área litorânea da APA do Delta do Parnaíba na cidade de Parnaíba - Piauí, uma comunidade onde os moradores praticam a pesca artesanal, o cultivo de produtos orgânicos para uso próprio, o comércio e o “turismo,” que por anos são sua fonte de renda. Podemos dizer que Pedra do Sal tem mais que a pedra, o mar e o sol, existe história e memória no local. Os moradores tem uma apropriação afetiva com o ambiente onde vivem. Costumo dizer que é similar ao filme “Bacurau”, a forma com que as pessoas se apegam ao seu lugar de moradia e a forma como são vistos e tratados pela gestão municipal.
Assim, percebe-se ao pisar no solo da comunidade que ali todos se conhecem, todos se protegem, estão trabalhando em comunidade, mesmo que exista as intrigas pessoais. Meus pais dizem ser um paraíso, que não há segurança policial, mas não tem criminalidade, não há saneamento, mas as pessoas se preocupam com seu ambiente, não há infraestrutura, mas fazem a sua própria, vamos dizer que a gestão fornece o básico do básico.
UMA VISÃO SOBRE ECONOMIA
Pedra do Sal é uma comunidade resistente, nos anos de 2005 à 2007, a comunidade costumava ir para “os matos”, esse era o termo para definir a época da colheita do caju, murici e do guajirú, sem esquecer da período de caça, que atualmente não mais existe. Essas atividades ajudavam a comunidade a se estabelecer economicamente, pois retiravam o caju para vender a castanha e um rapaz que morava na cidade de Ilha Grande passava para comprar esse produto. 
Os donos de bares já se estabeleciam na época, pois existia fluxo de turistas e visitantes, maior que no dias atuais, comercializavam bebidas e o pescado da região, eram tempos bons para a comunidade, comparado ao descaso que é dado na atualidade. Os interesses da gestão e os “donos das terras” nunca foi  o desenvolvimento  comunitário.
O comércio sempre foi a melhor saída para o desenvolvimento, é possível perceber comparado ao ano de 2004 que existia aproximadamente 2 ou 4 mercearias, hoje há entorno de 13, a atividade da pesca já não é mais a única saída para as novas gerações, com as oportunidades e as transformações sociais e tecnológicas, tudo começa a mudar.
EDUCAÇÃO
 Para a educação infantil uma creche nomeada de “João Severo” e  uma escola  de nível fundamental menor,   “Escola Municipal Dr. João Silva Filho”. Essa última que ostenta o sobre nome Silva, oferta apenas metade do ensino fundamental e depois exige que os alunos se desloquem para as cidades de Parnaíba ou Ilha Grande, com as dificuldades que vem sofrendo nos últimos anos relacionado ao transporte escolar, é possível perceber que muitos dos estudantes hoje preferem se deslocar para as escolas da Ilha Grande..
Em 2017 foi inaugurado o Centro de Educação Janela Para o Mundo, criado pela Ômega Energia na comunidade Labino – Ilha Grande do Piauí, que oferta cursos de capacitação e reforços escolares, e que atendem toda região incluindo a Pedra do Sal.
OS ASPECTOS POLÍTICOS
A comunidade está em constante resistência para garantir seu espaço, é de conhecimento comum que as terras praieiras são de domínio “familiares”, estas que não cedem de forma alguma para a comunidade, por conta disso, houve durante anos e até atualmente, ameaças de retomar a terra, e proibição de construções para os moradores. A Pedra do Sal ia crescer em algum momento, existe um ciclo natural da vida.
Como a gestão e os políticos estão perante a essa situação? Bom, não há, nenhum vereador ou qualquer outro político presente na comunidade, nem o próprio prefeito, vamos dizer que aparecem em algumas ocasiões como o ano de eleição e o São João nos bairros. Um potencial atrativo turístico natural sendo abandonado.
Entretanto no ano de 2019 a tentativa de revitalizar a praia não funcionou! Por conta dos problemas sociais e políticos, a comunidade não queria sair de suas atividades de renda e abandonar seus bares, onde foi ofertado uma mudança na produção e oferta de produtos. O projeto contemplaria apenas 10 bares, sendo que há entorno de 25, incluindo os quiosques, um espaço para evento e um centro de artesanato, sendo que o que gera lucro na praia são os bares e restaurantes. Não que a reconstrução seria algo ruim, porém contradiz os anseios dos moradores.
Assim, levanto uma possibilidade enquanto morador, que poderia ter acontecido anos atrás, e se Pedra do Sal estivesse dentro do processo de emancipação junto à comunidade de Ilha Grande? Teria sido melhor articulado os interesses políticos e sociais? Por estar mais próximo as duas comunidades, o incentivo seria melhor no Turismo, os problemas relacionado as terras teria sido menos implicantes? Provavelmente. Sem dúvidas que seria em um processo lento, mas será que anos? E só ofertaria os serviços básicos?
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Contudo, Pedra do Sal permanece em seu estado de abandono, não se pode dizer com certeza o que teria acarretado se estivesse dentro dos bairros da Ilha Grande do Piauí, mas a única certeza que nós temos é que ainda falta muito pra ser um bairro pertencente a cidade de Parnaíba sem estar na categoria rural, e para o turismo o mesmo, sem infraestrutura básica com qualidade. Esse texto foi escrito baseado nas vivências, e com influências de autores da antropologia e etnografia que demonstram e buscam compreender a realidade do homem e o seu papel na sociedade, o que enriquece mais ainda este relato. Além disso, despertar o interesse por temáticas sociais das comunidades minimizadas pelo próprio sistema. E até quando esses problemas se prolongarão?


Fontes:
URIARTE, Urpi Montoya. O que é fazer etnografia para os antropólogos. Ponto Urbe: Revista do núcleo de antropologia urbana da USP, 2012. Disponível em: http://pontourbe.revues.org/300 . Acesso em 25 de novembro. 2019.
MAGALHÃES BATISTA, Cláudio. Memória e Identidade: Aspectos relevantes para o desenvolvimento do turismo cultural, Caderno Virtual de Turismo, Vol. 5, núm. 3, p. 27 – 33. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil, 2005.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Reflexões sobre como fazer trabalho de campo. Sociedade e Cultura, v. 10, n. 1, p. 11 – 27. Jan./jun. 2007.
BACURAU. Direção de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Rio de Janeiro: Globo Filmes, 2019. 132 min.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Sobre a divisão do território.





II- O processo de divisão da Ilha.


1. Vista da Ilha Grande de Santa Isabel do topo da Ponte Simplício Dias.

    Amigo leitor, começaremos com um exercício mental; imagine-se na parte mais alta da ponte Simplício Dias de costas para Parnaíba, lembre-se de todo aquele mundo verde à sua frente. Caso nunca tenha parado para especular a bela ilha, sugerimos que da próxima vez que fizer essa travessia, você pause os olhos na paisagem. A ponte liga a cidade de Parnaíba à maior ilha de um conjunto com mais de 70, que formam o único delta em mar aberto das Américas[1], o nome desse pedaço de chão desmembrado do continente é Ilha Grande de Santa Isabel, o que pode lhe parecer confuso, visto que essa ilha abriga hoje um bairro de Parnaíba que é batizado com mesmo nome (Ilha Grande de Santa Isabel) e uma cidade com um nome parecido (Ilha Grande). O conteúdo desse texto nos remete a um período antes dessa subdivisão, nosso objetivo é explicar o motivo dessa bagunça.

    “O progresso desperta em teu porvir...”, esse trecho retirado da terceira estrofe do hino da cidade de Ilha Grande do Piauí, mostra o maior desejo dos que acreditavam no processo emancipatório dessa região como forma de melhorar a qualidade de vida dos que ali viviam.

    Como foi comentado no texto anterior, a Ilha (como um todo) via as luzes do progresso apenas como desejo distante. A área excluída e desprovida de políticas públicas como já citado, era visada somente em tempos de eleição, esse fato fica claro no trecho do Jornal Inovação de 1979 que dizia: “A Ilha Grande de Santa Izabel é formada de diversas  carentes e marginalizadas, dentre elas situa-se o Morros da Mariana a mais ampla. Seu povo na maioria é gente humilde. Na hora do voto suas urnas têm decidido a parada”, mostrava como a região funcionava como curral eleitoral e era decisiva nas eleições parnaibanas.

    Com a falha da administração de Parnaíba, não era de se estranhar que as lideranças do movimento de emancipação ganhassem força com apoio popular. De início o desejo era a emancipação de toda a Ilha, porém este não se realizou, e você caro leitor já se perguntou por qual motivo não houve uma emancipação total?

    Pois bem, hoje sabemos que a ilha foi dividida com sua cidade "Mãe", divisão muito mais política que territorial, pois antes de emancipada os políticos que possuíam grande influência por deterem grandes porções de terra, se aproveitavam da falta de informação do povo, para obter grande parte dos votos. Como Ilha Grande de Santa Isabel possuía significativa população e sabendo que: ter território é ter poder, principalmente político e econômico, a emancipação total implicaria na perda desse eleitorado, que poderia acarretar muitas mudanças na vida política da cidade de Parnaíba, esse talvez tenha sido um dos motivos para essa divisão tão mal feita. Outro motivo também de natureza econômica, foi a briga por nosso litoral, Parnaíba como uma criança birrenta bateu pé que não abriria mão da única praia que até então pertencia a eles.

    Em agosto de 1993 o Jornal Diário do Povo lança uma nota sobre a aprovação do plebiscito pelo IBGE, passo importante para a emancipação da cidade, ainda nesse texto o jornal enfatiza a questão territorial: "O assunto, entretanto, serviu para reacender uma velha disputa entre Fonteles (PT) e o deputado João Silva Neto (PMDB) que é de Parnaíba e já insurgiu contra a iniciativa. Ele disse que até já aceita que o povoado seja emancipado, entretanto, se o limite para a divisão for apenas o rio, fica difícil uma conciliação". Essa colocação nos aponta uma briga política acerca do nosso território, porém uma questão que sempre aparece é a praia, ainda na mesma matéria, João Silva Neto fala que: "Parnaíba tem apenas 14 quilômetros de praia e os Parnaibanos não querem perder a única que tem em sua área", frase parecida com a usada por Francisco de Assis de Moraes Souza (Mão Santa), para justificar o Projeto de Lei que em 1992 elevou os Morros da Mariana a bairro de Parnaíba. Já prevendo o que estava por vir, Mão Santa dizia: "Senhores vereadores diante dos comentários que uma minoria deseja e defende e emancipação política e administrativa do povoado Morros da Mariana, cabe ao poder municipal tanto executivo como legislativo unir esforços, num dever patriótico de adotarem medidas de preservação da integridade física e territorial de Parnaíba [...] Considerando a desfiguração da perspectiva turística  de Parnaíba com a perca do nosso litoral em 12 quilômetros  já inferiorizado do município  vizinho  Luis Correia de 54 quilômetros de praia.

    Percebemos que a perda da nossa praia se deu muito mais por uma questão política e ego. Nossa cidade "Mãe" sempre temerosa por sua inferiorização, além de todo crescimento da exploração do turismo da região, algo que pesou muito, pois na época Pedra do Sal embora pobre em estrutura, já era visada como atrativo turístico e na decisão de tornar Ilha Grande independente isso foi importante. A negociação mas se pareceu uma troca, "A praia e um pedaço da Ilha, pela Emancipação Política", mas um fato considerável é que a praia Pedra do Sal embora oficialmente "pertença" a cidade de Parnaíba, tem uma ligação com ilhagrandense que vai além de qualquer divisão territorial imaginaria.


2. Título da matéria do Jornal Diário do Povo sobre aprovação do plebiscito.


    Em 04 de Setembro de 1993 Padre Pedro Quiriti, após a nota no Jornal Diário do Povo sobre o plebiscito, em carta para o deputado João Silva Neto (PMDB), enfatiza a importância da permanência do território como todo, transmitindo uma preocupação da população que pedia pela emancipação, diz: "Sei que V. Excia Já é conhecedor destes anseios de emancipação através do projeto e solicitação debatida nesta assembleia legislativa, sendo inclusive publicada no Jornal "Diário do Povo" a aprovação do IBGE para o plebiscito a ser realizado na Ilha. Asseguro no entanto que a "unidade geográfica" é uma questão fundamental para o bom andamento da emancipação, até por que o povo da Ilha tem uma só tendência, um só sentimento e os problemas existentes são comum a todos, havendo, portanto, em seu sangue uma raiz comum". Alguns podem até dizer que essa raiz não era tão comum, mas uma coisa o padre tinha razão, a ilha tinha problemas que eram compartilhados em todos os cantos  e que até hoje podem ser vistos em bairros do lado de cá da ponte que pertencem a Parnaíba, em comunidades como Alto do Batista,  Boa Vista e a tão cobiçada Pedra do Sal. Ainda nos dias atuais esses bairros sofrem com a falta do abastecimento de água, coleta de lixo e péssimas condições da estrada, problemas que eram apresentados no povoado Morros da Mariana antes da emancipação política. Então Ilhagrandense, já se perguntou como estaria nosso município se ainda fossemos um bairro de Parnaíba?

    Pouco depois de dois anos de emancipação do município e um dia antes da primeira disputa eleitoral da nova cidade, o Jornal Meio Norte de outubro de 1996, apresenta um pequeno artigo intitulado: “Ilha Grande, cidade que parece bairro”  falando sobre a situação da cidade pós emancipação e mostra também o descontentamento do Padre em relação a divisão: " Há quinze anos trabalhando no lugar, o Padre deplora a divisão territorial feita por sugestão do deputado João Silva Neto, "Os políticos dividiram a ilha estupidamente, como se fatia um salame de forma errada. O povoado Labino foi dividido ao meio e lá existem casas que ficam metade no município de Parnaíba e outra metade em Ilha Grande””.

    E sobre a perda da praia, o jornal diz: "Ilha grande, apesar do nome é uma cidade sem praia" de fato, perdemos nossa praia para cidade de Parnaíba, tendo nossa ilha dívida, não pela força da natureza, mas pela força dos interesses dos políticos, que pouco olham para região, esse debate ainda é muito fresco na cabeça do ilhéu, principalmente no que diz respeito a questão da praia Pedra do sal, mas não poderia ser diferente, como uma ilha fica sem sua praia? Coisas que só acontecem por aqui!  Hoje a Pedral[2] sofre com o descaso do poder público e é explorada por empresas internacionais, mas para quem mora na Ilha ela  é um pedaço de uma maravilha linda, com seus tesouros escondidos no farol... Pedra do Sal nos pertence, assim como nós pertencemos a ela.







Ilha Grande – PI, 23 de fevereiro de 2020
Carta Ilhagrandense.

Dos Autores ao povo.

3. Vista aérea do Rio Igaraçu, braço do Rio Parnaíba que divide o município de Parnaíba e a Ilha Grande de Santa Isabel. A direta da foto pode-se ver o final da Av. Presidente Getúlio Vargas ainda sem a ponte, que só seria construída 40 anos depois.

3. Matéria do Jornal Diário do Povo sobre aprovação do plebiscito ilustrado com a foto de Nazareno Fonteles. 

4. Mapa da cidade de Ilha Grande do Piauí.

5. Recorte de Jornal Meio Norte fazendo critica a emancipação.



Continua...
6. Carta do Padre Pedro Quiriti ao Deputado João Silva Neto.


7. Protesto de moradores do Povoado Alto do Batista na parte da Ilha Grande de Santa Isabel que pertence a Parnaíba, janeiro de 2020, blog do B Silva.





[1] Localizado na zona costeira brasileira, o Delta do Rio Parnaíba é formado por cinco barras: Igaraçu, Canárias, Caju, Melancieira e Tutóia.
[2] Tanto o ilhagrandese como o parnaibano costumam abreviar o nome Pedra do Sal, se referindo a praia somente com o apelido Pedral.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Sobre a emancipação

A EMANCIPAÇÃO ILHAGRANDENSE: uma ilha dentro da Ilha.

I – O brado de Isabel e Mariana.

             
              1. Movimento Pró Emancipação de 1993. (Arquivo pessoal Magno Brito).

Alguns poucos dias depois do ano novo, é chegado mais uma Primavera, Ilha Grande completou no dia 26 de Janeiro, 26 anos. Uma jovem cidade … ou seria uma cidade jovem? Seja como for, como se deu o processo de emancipação ilhagrandense? Como que o antigo Morros da Mariana, famoso povoado do município de Parnaíba[1] ganhou o status de cidade?

 Caro leitor, vamos nos sentar que a história é longa. Como dissemos anteriormente, Morros da Mariana e os demais bairros que hoje compõem o município de Ilha Grande do Piauí, eram no passado, simples povoados de Parnaíba que juntos formavam segundo jornais dos anos 70, “o maior celeiro econômico do município” (Folha do Litoral. 26/02/1975).  

No passado, o Mercado Central de Parnaíba[2] e outros pequenos mercados vizinhos eram abastecidos de arroz, frutas, verduras, legumes diversos, etc (Jornal Norte do Piauí. 4,5/11/1978, p.1) por homens e mulheres que saiam de suas casas na Ilha, antes do cantar do galo e rumavam numa desgastante caminhada na areia fofa, barro ou lama dependendo da estação do ano, até a beira do rio do lado de cá da ponte[3], então atravessavam o Rio Igaraçu em canoas ou balsas até finalmente chegarem ao centro.  As coisas melhoraram um pouco na primeira metade da década de 70, com a construção da estrada Morros/Parnaíba em 1972 e da ponte Simplício Dias em 1975. Apesar dessas sensíveis melhorias, os povoados e os ilhéus eram esquecidos pelo poder municipal. Pescadores, lavradores, marisqueiras, catadores de caranguejo, comerciantes, demais trabalhadores e estudantes eram visitados somente nos períodos eleitorais pelos vereadores. As ruas arenosas, a inexistência de água encanada, de energia elétrica e a falta de atendimento à saúde, era uma realidade desse povo que vivia à luz de lamparinas e bebiam água retirada das cacimbas.

Historicamente, os Morros agia como centro da Ilha e tinha um expressivo número de habitantes. Nos anos 1980, “13,26%”( Jornal Inovação. ??/03-04/1985,p. 4) do contingente populacional de Parnaíba, morava nos Morros, o número de votantes também era bastante expressivo e muitas vezes refletia nas eleições locais. Os jornais desse período afirmavam que “na hora do voto, suas urnas [da Ilha] têm decidido a parada” (Inovação. 01/07/1984.p.7).

Após anos de desleixo por parte do poder público, a população que sempre exigiu melhorias e uma vida mais digna, começou a se organizar politicamente no final da década de 80. Os cidadãos juntamente com padre Pedro Quiriti[4], pároco nesse momento, uniram-se para reivindicar a autonomia política dos povoados da outra margem do Igaraçu. No ano de 1991, houve um comício do Partido dos Trabalhadores (PT) nos Morros. Nazareno Fonteles, candidato a deputado pelo referido partido, foi procurado pela comissão de moradores do lugar, auxiliados por Padre Pedro. Durante o evento, o político recebeu da Comissão Pro Emancipação Política do Município, a seguinte demanda: apoiar e viabilizar a criação da cidade de Ilha Grande do Piauí.

 Devemos frisar que a luta pela emancipação e sua vitória, não foi do dia para a noite e nem ocorreu sem entraves ou oposições. Deputados estaduais de Parnaíba eram contrários, bem como alguns moradores que faziam parte do “Grupo do Não” (grupo contrário ao movimento), revelando portanto uma pluralidade de opiniões. Em Carta à Assembleia Legislativa do Piauí, foi documentado que os deputados, Francisco de Assis de Moraes Sousa (Mão Santa)[5], que na época era prefeito de Parnaíba, e João Silva Neto[6], não viam com bons olhos a ideia. Cada um deles tinha uma motivação individual: Morais Sousa “porque detém o mando do poder na cidade de Parnaíba”(Carta à Assembleia Legislativa, 1992), e Silva Neto não queria “perder seu pretenso ‘curral eleitoral’”(Carta à Assembleia Legislativa, 1992), este último ainda, afirmava apoiar a campanha, desde que “seja excluída a área correspondente à Pedra do Sal”(Carta à Assembleia Legislativa, 1992), já os moradores opositores alegavam que o lugar não tinha condições para ser autônomo de Parnaíba. Pode-se ver portanto, as ambições pessoais acima das questões do bem comum, já que o conjunto de povoados atendia todas as exigências que a constituição de 1988 e suas emendas citavam, como por exemplo ter no mínimo 4.000 habitantes.

Deste modo, possivelmente, Mão Santa (PDS) a fim de evitar a separação do município, assinou o projeto de lei n. 2145/92 que transformava o povoado Morros da Mariana em bairro, compreendendo-o dentro da zona urbana. N’uma mensagem do prefeito aos vereadores, o intendente municipal apresentava as vantagens desse novo status conferido ao povoado, segundo o documento, “Morros da Mariana receberá maior atenção do poder público, acolhendo maciços investimentos nas áreas de educação, saúde, transportes” (Mensagem aos vereadores de Parnaíba, 1992). O movimento do prefeito parnaibano portanto, dava a entender que tinha o intuito de causar relativa autonomia e importância ao lugar.

Podemos ler esse decreto como uma tentativa de conter o movimento em prol da emancipação da Ilha. Fazemos essa constatação ao lermos uma fala do prefeito no qual afirmava que cabia “unir esforços, num dever patriótico, de adotarmos medidas de preservação da integridade física territorial de Parnaíba”(Mensagem aos vereadores de Parnaíba, 1992). Pode-se perceber que a questão não era social, isto é, o que importava não era o bem estar dos cidadãos da Ilha, mas sim, a fragmentação do território de Parnaíba que desde os anos 1950 vinha sendo dividida em novos municípios, perder Ilha Grande era portanto, uma derrota para Parnaíba, a “cidade invicta”. Lendo ainda essa mensagem, o prefeito sustentava que era imperioso manter a integridade territorial, “considerando a desfiguração da perspectiva turística de Parnaíba com a perda do nosso litoral de 12 quilômetros, já inferiorizado ao município vizinho de Luís Correia de 54 quilômetros de praia”(Mensagem aos vereadores de Parnaíba, 1992). Vemos de forma documentada uma das primeiras vezes em que o poder municipal parnaibano, usa a possível perda da faixa litorânea como desculpa para impedir a emancipação, todavia, isso ficará para outro momento, continuemos com nossa história. 

Apesar do decreto, a comissão não ficou satisfeita e prosseguiu com a campanha e com sua luta. No intuito de atender mais uma das exigência para dar prosseguimento ao processo, foi feito ainda em 1992, um Memorial Descritivo detalhando todos os pontos sociais, econômicos e políticos, bem como a estrutura de serviços que existia a fim de atender as necessidades do futuro município. O documento era finalizado com uma mensagem sublinhando possuir garantias de sua autonomia: os Morros, “é hoje uma comunidade organizada e procura sempre manter este padrão, pela importância que em cada região deve ter no se assumir a responsabilidade da cidadania e por conseguinte, sua emancipação política” (Memorial Descritivo, 1992, p. 2).  Em 1993 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE, “deu parecer favorável ao pedido do deputado Nazareno Fonteles (PT) para a realização de uma consulta plebiscitária no povoado Morros da Mariana, em Parnaíba, a fim de confirmar se a população quer ou não sua emancipação política” (Diário do Povo. 04/08/1993, p.1). Se o povo é soberano, nada mais justo que ele mesmo escolha os caminhos que devam ser tomados, por isso a importância do plebiscito e da participação popular.

No dia 12 de Dezembro de 1993, um domingo, homens e mulheres, jovens e adultos, saíram de suas casas e foram às urnas assinalar sua opinião. Eram 2.210 votantes e destes, 1.550 votaram sim, ou seja, 70% do eleitorado era a favor da emancipação política, menos de 25% foi contra, enquanto que aproximadamente 5% votou em branco ou anulou o voto. Essa data foi proclamada como o “Dia do Sim”, marcando dessa forma, uma vitória da mobilização popular que há anos reivindicava direitos e melhorias para suas comunidades. No dia 26 de janeiro de 1994, no Palácio do Pirajá, em Teresina, o governador do estado, Antônio de Almendra Freitas Neto, assinou a lei nº 4.680, que criava vários municípios no Piauí, dentre eles, Ilha Grande.



                    
            2. O então Prefeito de Parnaíba José Hamilton Castello Branco apontando para o nome de Ilha Grande no dia da sanção  da lei de emancipação. (Arquivo pessoal Magno Brito).

Apesar do “sim”, a Ilha levaria ainda três anos para que tivesse seu primeiro prefeito. Devido ter sido criada em ano não eleitoral, somente em 1996 é que os ilhagrandenses escolheriam o intendente, nesse intervalo, partidos políticos e possíveis candidatos se organizavam já em vistas do pleito municipal. As cortinas se fecham para os segundo ato, o palco da política em poucos minutos será novamente ocupado, enquanto isso, nos camarins, o elenco, isto é, o povo, políticos, partidos e instituições se aprontam para as próximas cenas. 













Ilha Grande – PI, 09 de fevereiro de 2020
Carta Ilhagrandense.

Dos Autores ao povo.





DOCUMENTOS CEDIDOS PELA PAROQUIA DE NOSSA SENHORA    DA CONCEIÇÃO AOS PESQUISADORES DO CARTA ILHAGRANDENSE.


      Manifesto entregue pela Comissão Pro Emancipação aos deputados que participaram do comício do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1991.



Continua...


Carta do assessor Marcos Vínicius listando os documentos exigidos para a viabilização do processo de emancipação.


Lei assinada por Francisco de Assis de Moraes Souza (Mão Santa) nomeando como bairro o até então povoado Morros da Mariana.

Continua ...

Mensagem do Prefeito Mão Santa aos vereadores justificando o Projeto de Lei 2145/92 mencionado a cima.


                                                                        Continua ...

Memorial Descritivo feito pela Comissão Pro Emancipação.


Frente do panfleto explicando sobre o plebiscito para emancipação.


Verso do panfleto explicando sobre o plebiscito para emancipação.


Anotações encontradas sobre o resultado do Plebiscito Emancipatório nos documentos da Paroquia de Nossa Senhora da Conceição em Ilha Grande do Piauí.



[1] Os Morros eram um lugar em que vários parnaibanos vinham passar uma temporada de descanso. Humberto de Campos, membro da Academia Brasileira de Letras, em 1897 passou um pouco mais de seis meses no antigo arraial de pescadores. Conferir. CAMPOS, Humberto. Morros in Memórias. Opus Editora 1983, p. 223 – 229.   
[2] Atualmente esse mercado fica entre a Praça dos Poetas e a Praça Coronel Jonas, abrigando diversos estabelecimentos comerciais no centro de Parnaíba.
[3] Os autores convidam o leitor não morador da Ilha, a imaginar-se ilhéu e descobrir dizeres que este povo carrega.
[4] Padre de origem italiana, sua chegada no começo dos anos 80 foi marcada por profundas mudanças, como a fundação da paroquia de Nossa Senhora da Conceição em 1985 e a construção do Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Pobres em 1989.
[5] Político que aos 77 anos de idade, exerce seu segundo mandato como prefeito na cidade de Parnaíba. Seu primeiro mandato de 1º de janeiro de 1989 até 31 de dezembro de 1992 coincide com o período das ações pro emancipação.
[6]  Irmão de Herbert Silva atual prefeito de Ilha Grande, exerceu dentre vários cargos políticos, o de Deputado estadual do Piauí entre os anos de 1987 e 1995.